Ver documento como PDF Ver página web como PDF Conteúdo     Sve Eng Esp Port  
Manual metodológico
O Manual Metodológico
Pensamentos sobre a cooperação para o desenvolvimento
Teoria e conceitos
Pobreza e poder
Desenvolvimento sustentável
Democracia
Direitos humanos
Gênero – Sexo e poder
Etnicidade e interculturalidade
O conceito de classe social
Desenvolvimento de organizações
Métodos de análise
Planejamento, monitoramento e avaliação
Métodos da Svalorna LA
Métodos da Terra do Futuro
Métodos do SAL

O conceito de classe social

Uma sociedade é sempre dividida em camadas sociais e um dos termos mais freqüentes para descrever isto é o conceito de classe social. A classe social vem tradicionalmente das camadas socioeconômicas, isto é, dividindo a sociedade segundo renda e propriedade de capital. Fazer uma análise de classe social numa sociedade é uma forma de visualizar as estruturas de poder que realmente existem, e não como às vezes parece: dividir as pessoas entre melhores ou piores.

O conceito de classe que mais freqüentemente aparece nas discussões é o conceito marxista, baseado em duas classes sociais em permanente conflito; a classe proprietária e a classe operária. Essa definição de classe social se baseia num grupo na sociedade que é dono da maior parte do capital (ou meios de produção) e a classe operária que apenas é dono da sua mão de obra. Os dois grupos vivem em conflito contínuo porque a classe proprietária quer lucrar o máximo possível em cima da classe operária.

O problema desta definição do conceito de classe é que é difícil aplicar na sociedade de hoje. Enfoca principalmente os fatores econômicos da sociedade e perde assim outras dimensões que também existem na sociedade de classe. Além disto, há grupos profissionais na sociedade atual que não se encaixam em nenhuma dessas categorias.

O conceito de classe desenvolvido por Pierre Bourdieu mostra mais aspectos da sociedade de classe. É mais complexo, mas oferece uma melhor imagem das condições reais. Bourdieu defende a existência de diferenças culturais entre as classes sociais, o que revela mais obstáculos que os econômicos, e que a propriedade real apenas é uma parte do conceito de classe. As diferentes classes criam diferentes culturas que dificulta a ascensão dentro do sistema de classes. Bourdieu chama isto ”o capital simbólico” porque as estruturas de poder são construídas por símbolos. O valor da pessoa é sinalizado pela formação, título e outros símbolos que dão uma posição na sociedade.

Caso uma pessoa de origem humilde ganhar 100 milhões na loteria, ela possivelmente não será reconhecida entre a classe alta como um deles. O outro extremo é uma pessoa de família tradicional que não dispõe um capital próprio. Ela ainda será tratada de classe alta por causa do estados herdado, neste caso um nome. Posição social torna-se neste contexto mais importante que a propriedade. Assim, existem várias dimensões no conceito de classe, além da propriedade de capital. Na sociedade atual, o diretor de uma empresa nem sempre é o dono. A pessoa tem poder baseado num capital que não é a propriedade dela. Acesso torna-se nesta análise tão importante quanto a propriedade. Outros símbolos importantes podem ser o bairro onde a pessoa mora, o carro que dirige e os interesses nas horas de lazer: ir a uma exibição de arte ou num jogo de futebol. Eis um aspecto que o conceito marxista não toma em conta.

Bourdieu defende que a sociedade de classe se reproduz e passa de geração a geração e que toda a sociedade participa deste processo. A ambição do sistema educacional de tratar todo mundo igual de fato dá os que vêm de outras classes sociais que a norma, piores condições que os que vêm da classe dominante.O sistema favorece os grupos fortes enquanto os fracos têm que lutar, e isto contribui à reprodução da sociedade de classes.

Se se vê o conceito de classe como mais amplo que a propriedade de capital (ter dinheiro) torna-se importante visualizar os símbolos que representam o poder e criar consciência sobre o fato que os símbolos mantêm as estruturas de poder. Se quiser combater os problemas relacionados à classe social, é preciso tomar em conta os aspectos culturais na estratégia. Uma distribuição de recursos não é a única solução destes problemas.

Outro ponto central é o trabalho do próprio movimento de solidariedade e o cuidado necessário para não contribuir à reprodução das estruturas de classe, que nem sempre é tão fácil. Por isto é importante conhecer a sociedade de classe no contexto no qual se trabalha, e aprender os símbolos das classes neste sentido. Também é importante entender que uma pessoa pode pertencer a diferentes classes dependendo da situação. Isto se torna especialmente óbvio quando um trabalhador de solidariedade da Europa trabalha num país onde sua cor da pele, história e tradições sinalizam outra classe, diferente da classe na qual ela pertence no seu próprio país. É sedutor ser reconhecido como uma pessoa com posição social, e é preciso consciência sobre as estruturas de classe para lidar com isto.